Um guia prático para criativos e jornalistas que querem usar IA com mais intenção. Sem programação. Com raciocínio.
—
Prólogo
Em algum momento entre 2022 e hoje, "usar IA" virou instrução padrão em qualquer empresa. A parte de ensinar como ficou pra depois.
O gap entre saber que a ferramenta existe e saber trabalhar com ela é maior do que parece. Prompts que funcionam uma vez e nunca mais, processos que só uma pessoa consegue replicar, textos que chegam pra revisão sem que ninguém tenha lido antes de mandar, projetos que somem porque ninguém registrou nada.
Esse manual foi feito pra criativos e jornalistas que querem usar IA com mais intenção. Não tem programação aqui. O foco é no raciocínio: quando acionar, como avaliar o que a ferramenta entrega e quando o melhor a fazer é simplesmente reescrever do zero.
IA funciona bem nas mãos de quem pensa antes de usar. Você define o que quer, a IA executa, você revisa o que saiu. Quem pula esse fluxo vai notar no resultado.
Quem escreve
Fábio Devito é jornalista e estrategista de conteúdo digital com mais de 14 anos transitando entre redação, publicidade e comunicação corporativa. Passou pelo G1, Olhar Digital e hoje atua como Estrategista Sênior de Conteúdo para Intel e Coca-Cola na Burson (WPP). Usa IA no trabalho desde antes de virar tendência de LinkedIn e criou esse manual porque percebeu que as mesmas dúvidas aparecem em profissionais de perfis muito diferentes, e que faltava um lugar simples para começar.
Este manual foi escrito com IA sob supervisão humana. Nenhum prompt foi colado sem ser lido antes e nenhuma IA foi maltratada no processo.
hora de aquecer
01
O que não colocar numa IA
Antes de abrir qualquer ferramenta de IA, vale ter uma regra simples na cabeça: não coloque nada que você não mostraria para um estranho na rua.
O que nunca vai no prompt
- Nome de cliente sem autorização
- Briefing com informações estratégicas
- Dados de campanha que ainda não foram a público
- Informações pessoais de terceiros
- Senhas, planilhas financeiras, contratos
- Qualquer coisa coberta por NDA
Por que isso importa
Dependendo da ferramenta e das configurações que você não leu quando criou a conta, o que você digita pode ser usado para treinar modelos. Isso não é teoria da conspiração, está nos termos de uso. Ferramentas corporativas como o WPP Open existem justamente para contornar esse problema. Quando o trabalho envolver informações sensíveis, use o canal certo.
Antes de colar qualquer coisa no prompt, pergunte: se esse texto aparecesse numa tela pública, eu teria problema? Se a resposta for sim, não manda.
02
Quando NÃO usar IA
IA é boa em executar. Ruim em julgar. E julgamento é boa parte do que faz o trabalho criativo valer alguma coisa.
Situações em que a ferramenta atrapalha mais do que ajuda
- Textos curtos que você escreveria em dois minutos
- Decisões criativas que dependem de contexto que só você tem
- Comunicações onde o tom importa mais do que a estrutura (feedback, cliente difícil, situações delicadas)
- Qualquer coisa que exija conhecimento do histórico de uma conta ou relação
A IA vai entregar um texto funcional. Funcional não é o suficiente quando o que está em jogo é confiança.
A pergunta certa antes de abrir a ferramenta não é "a IA consegue fazer isso?". É "faz sentido pedir pra ela fazer isso agora?".
03
A conta do tempo
Existe uma ilusão de que delegar para a IA é sempre mais rápido. Não é.
Tem uma conta que a maioria não faz: o tempo que você gasta explicando o que quer, ajustando o resultado, revisando o que não ficou certo e editando até ficar como você queria. Para tarefas curtas, esse tempo costuma ser maior do que o tempo de simplesmente fazer.
Fazer você mesmo é mais rápido
- Título de post
- Ajuste de um ou dois parágrafos
- Legenda curta
- Resposta rápida de e-mail
Quando a IA compensa
- Tarefas repetitivas em volume
- Primeiras versões de textos longos
- Pesquisa e síntese de informação
- Padronização de formatos
A ferramenta ganha em escala. Para o trabalho pontual e pequeno, às vezes o mais produtivo é simplesmente abrir o documento e escrever.
"I Know Kung Fu" — Neo
04
O que é um Prompt?
Um prompt é a instrução que você dá para a IA. Pode ser uma pergunta, um comando, um contexto com orientações, ou tudo isso junto. É o ponto de entrada de qualquer interação.
O nome intimidou muita gente. "Prompt engineering" virou buzzword de LinkedIn e criou a impressão de que é uma habilidade técnica complicada. Não é. Se você já pediu para um colega "me faz um resumo desse texto mas focando nos números", você escreveu um prompt. Com IA você precisa ser um pouco mais explícito porque ela não tem o contexto que um colega teria, mas o raciocínio é o mesmo.
O que faz um prompt funcionar
- Contexto: quem você é e para que serve o resultado
- Instrução clara: o que exatamente você quer
- Formato: como quer que a resposta apareça (parágrafo, lista, tabela)
- Tom: formal, casual, técnico, direto
Exemplo ruim
Escreve um post sobre o evento
Exemplo bom
Escreve um post para o Instagram da Intel sobre o Brasil Game Show. Tom casual, voltado para gamers, sem emojis. Máximo 150 caracteres. Destaca que a Intel vai ter uma área interativa no evento.
A diferença entre os dois não é habilidade técnica. É clareza sobre o que você quer.
05
O que é um Script?
Se um prompt é uma instrução, um script é uma instrução que você construiu para usar várias vezes.
Um prompt é uma conversa. Um script é um formulário com campos fixos que você preenche cada vez que precisa do mesmo tipo de resultado. As partes que mudam ficam marcadas como variáveis, as partes que não mudam ficam sempre iguais.
Como um script se parece na prática
Você é um redator de redes sociais especializado em tecnologia e games.
Escreva uma legenda para o Instagram da [MARCA] sobre [ASSUNTO].
Tom: [TOM]
Tamanho: máximo [NÚMERO] caracteres.
Inclua: [ELEMENTO OBRIGATÓRIO]
Não use emojis.
Toda vez que precisar de uma legenda, você preenche os campos e manda. O resultado vai ser consistente porque a estrutura é a mesma.
Scripts são especialmente úteis quando mais de uma pessoa precisa executar a mesma tarefa, ou quando o resultado precisa ter sempre a mesma cara independente de quem está fazendo.
06
Prompt vs. Script
A decisão entre usar um ou outro depende de uma pergunta: você vai precisar desse resultado mais de uma vez, sempre no mesmo formato?
Se sim, vale construir um script. Se é algo pontual ou que muda muito de acordo com o contexto, um prompt bem feito resolve.
Use prompt quando
- A tarefa é única ou muito específica
- Você está explorando, testando, pesquisando
- O contexto muda completamente a cada vez
Use script quando
- A tarefa se repete (diária, semanal, por projeto)
- Mais de uma pessoa precisa executar
- O resultado precisa ser consistente
- Qualquer pessoa do time precisa conseguir fazer
Escrever um post avulso sobre um lançamento é um prompt. Escrever posts de lançamento toda semana para uma conta com linguagem definida é um script.
07
Pensamento lógico para o seu briefing
O resultado da IA vai ser tão bom quanto a instrução que você deu. Se você chega com um briefing vago, vai receber uma resposta vaga.
O que eu quero?
Seja específico. "Um texto sobre o produto" é diferente de "uma descrição de 80 palavras focada no benefício principal para quem compra pela primeira vez".
Para quem é?
O público muda completamente o tom, o vocabulário e o que precisa ser dito ou omitido.
Onde vai aparecer?
Instagram tem lógica diferente de LinkedIn. E-mail tem lógica diferente de apresentação. Formato importa.
O que não pode faltar?
Liste os elementos obrigatórios: mensagem principal, CTA, restrições de marca, palavras que não pode usar.
Qual é o tamanho esperado?
IA tende a alongar. Diga o tamanho que você quer.
Responder isso antes de escrever o prompt poupa tempo de revisão depois. A maioria dos problemas com resultado de IA começa aqui.
08
Economia de tokens
Token é a unidade que a IA usa para processar texto. De forma simplificada, cada palavra ou pedaço de palavra conta como um ou mais tokens. Isso importa por dois motivos: custo e limite.
Ferramentas de IA têm um limite de tokens por conversa. Quando você chega nesse limite, a ferramenta começa a perder o fio da meada ou simplesmente para de funcionar bem. Prompts muito longos, contextos excessivos e conversas que se arrastam consomem esse limite mais rápido.
Hábitos que desperdiçam tokens
- Repetir o briefing inteiro toda vez que manda uma mensagem nova
- Colar documentos enormes quando você só precisa de um trecho
- Deixar conversas antigas abertas e continuar empilhando contexto em vez de começar uma nova
Como economizar
- Seja direto. Contexto útil é diferente de contexto em excesso.
- Para tarefas longas, divida em conversas separadas.
- Se precisar que a IA use um documento, destaque só a parte relevante.
- Resuma o contexto anterior em vez de repetir tudo.
Prompt eficiente não é prompt curto. É prompt com o que precisa, sem o que não precisa.
09
Janela de contexto
Se você já notou que a IA parece esquecer o que você disse no começo de uma conversa longa, não é impressão. É o funcionamento da ferramenta.
Toda IA tem o que se chama de janela de contexto: o volume de informação que ela consegue considerar de uma vez. À medida que a conversa avança, as informações mais antigas começam a sair para dar lugar às novas. Em conversas muito longas, a IA pode contradizer algo que ela mesma disse antes, ignorar uma instrução do início ou perder coerência com o que foi estabelecido.
Como lidar com isso
- Para projetos longos, comece conversas novas e traga só o contexto necessário
- Repita as instruções mais importantes quando a conversa estiver ficando extensa
- Se o resultado começar a piorar sem motivo claro, abra uma nova sessão
- Guarde seus prompts e scripts fora da ferramenta (Notion, planilha, documento) para não depender do histórico da conversa
A janela de contexto é uma limitação real. Trabalhar com ela em mente evita frustração e resultado ruim.
10
Alucinação
IA mente. Não por maldade, por limitação. E o problema é que ela mente com total confiança, sem nenhum sinal de que aquilo pode estar errado.
Isso acontece porque modelos de linguagem não "sabem" coisas da forma que um humano sabe. Eles geram texto com base em padrões, e às vezes esses padrões produzem informações que parecem corretas mas não são: datas erradas, nomes trocados, citações inventadas, estatísticas que não existem, links que não funcionam.
O que verificar antes de publicar ou apresentar
- Dados e estatísticas: cheque a fonte original
- Citações atribuídas a pessoas: verifique se foram ditas de fato
- Datas e cronologias, especialmente de eventos recentes
- Links e referências: a IA cria URLs que parecem reais mas não existem
- Qualquer informação que você vai usar como base de decisão ou argumento
Usar IA para pesquisa é válido e útil. Usar IA como fonte definitiva é um risco desnecessário.
Choose your weapon.
11
LLMs são ferramentas, não oráculo
LLM é a sigla para Large Language Model, o tipo de modelo que está por trás do ChatGPT, Claude, Gemini e da maioria das ferramentas de IA que você usa para texto. O nome técnico não importa tanto quanto o que ele implica: são modelos treinados para gerar linguagem, não para saber a verdade.
Essa distinção muda como você usa a ferramenta. Um oráculo você consulta e obedece. Uma ferramenta você usa com critério, sabendo o que ela faz bem e onde ela falha.
Você também não precisa escolher só uma. Cada modelo tem características diferentes, e dependendo da tarefa, uma ferramenta vai funcionar melhor que outra. Usar ChatGPT para uma coisa, Claude para outra e Gemini para uma terceira não é indecisão, é uso inteligente.
Por que combinar ferramentas faz sentido
- Cada modelo é treinado de forma diferente e tem pontos fortes distintos
- Nenhuma ferramenta é a melhor em tudo
- Para projetos complexos, usar mais de uma pode melhorar o resultado final
12
O painel de ferramentas
Não existe a melhor IA. Existe a IA certa para cada tarefa.
13
Afinando o instrumento
Trabalhar com modelos de IA tem algo parecido com equalizar um instrumento. Você não usa as mesmas configurações para uma música eletrônica e para um samba. Você ajusta os parâmetros de acordo com o que a tarefa pede.
O parâmetro mais relevante para o dia a dia é a temperatura. Ela controla o quanto o modelo vai arriscar nas respostas.
Temperatura alta
O modelo fica mais criativo, mais variado, às vezes mais surpreendente.
Bom para brainstorming, geração de ideias, textos que precisam de personalidade.
Temperatura baixa
O modelo fica mais previsível, mais consistente, mais conservador.
Bom para textos técnicos, respostas padronizadas, tarefas onde a variação é um problema.
Nem toda ferramenta expõe esse controle de forma explícita. Mas você pode simular o efeito no próprio prompt: pedir que a IA "seja mais criativa e ouse nas escolhas" é uma forma de elevar a temperatura via instrução. Pedir que ela "siga rigorosamente o padrão definido" é uma forma de baixá-la.
Outros parâmetros que você controla pelo prompt
- Tom: formal, casual, técnico, bem-humorado
- Formato: parágrafo, lista, tabela, tópicos
- Tamanho: número de palavras, parágrafos ou caracteres
- Persona: escreva como um especialista em X, escreva para o público Y
14
Além do texto
IA não é só texto. Para times de criação e conteúdo, as ferramentas de imagem, vídeo e áudio já fazem parte do fluxo de trabalho em muitas agências.
Conteúdo gerado por IA ainda está em zona cinza legal em vários países. Para uso em campanhas de clientes, verifique as políticas da ferramenta e as orientações do grupo antes de publicar.